Mentalidade de sucesso na carreira médica

Mentalidade de sucesso na carreira médica

Outro dia recebemos uma médica querendo se juntar ao nosso Centro de Excelência em Saúde Infantil que fica na Vila Mariana. Ela nunca tever uma mentalidade correta para ter sucesso na carreira médica. Lá nós temos mais de 40 pediatras e quase todos possuem R3.

Essa médica já tem mais de 15 anos de pediatria e a expressão que usou ao falar conosco foi: “agora eu preciso ganhar dinheiro”.

Essa história é verídica, com lições importantes. Após 15 anos de especialização, você não quer chegar nessa fase e sentir que não está bem remunerado.

Se você é médico(a) em início de carreira ou está em situação parecida, preciso te desafiar.

 

Um exemplo paralelo da minha vida

Preciso te contar uma lição rápida da minha vida que pode ter um paralelo com a sua. É bom que você muda um pouco de assunto!

Há mais de 15 anos, me formei em Engenharia de Telecomunicações pelo Instituto Militar de Engenharia (“IME”), no Rio de Janeiro.

Poucos sabem mas o IME é a escola de engenharia mais bem avaliada do Brasil. Todos os anos ela alcança a melhor nota como instituição de ensino de engenharia e seus alunos são detentores das maiores notas do ENADE.

Como ocorre em toda boa instituição de peso acadêmico, passei meus anos escutando que genialidade e competência técnica me faria um profissional “diferenciado”.

Ser um “técnico”  brilhante devia ser minha aspiração de vida.

 

A decepção com o viés do meio acadêmico

Assim, durante 5 anos da minha vida aprendi muita matemática e física. Aprendi fazer contas de como colocar um satélite em órbita. E também a projetar sistemas de fibra ótica que levam intenet nas casas.

Fui trabalhar em consultoria e vi colegas que eram promovidos muito mais rápido que eu por terem o que chamamos de “soft skills”.

Que decepção. Descobri que “somente” ser um excelente engenheiro (talvez médico, no seu caso?) NÃO me levaria a alcançar minhas aspirações. O que o meio acadêmico tinha me ensinado…?

Na verdade, descobri livros e pesquisas que provavam que inteligência e brilhantismo técnico não eram definidores de sucesso na carreira corporativa. A partir de um certo nível, importavam mais os “soft skills”.

Ou seja, minha formação iria me levar só até a página 2, talvez a 3… com sorte. Eu queria chegar na 250. Quem tinha soft skills iria crescer muito mais.

Por acaso na medicina você já encontra algum paralelo?

 

A grande mudança

Você deve saber quem tem “soft skills” na sua turma de medicina. São aqueles colegas capazes de influenciar, socializar e transmitir uma boa imagem pra todo mundo.

Eu poderia ter continuado com os “pré-conceitos” inicialmente incutidos em mim. Mas preferi refletir e não levar para o pessoal.

Cheguei a conclusão que com “soft skills” eu poderia ter muito mais impacto e aplicar muito mais a parte técnica que me era forte.

O bom de ser engenheiro é que você aprende a aprender. E aprende rápido.

Me livrei do pré-conceito e comprei um bestseller: “Como fazer amigos e influenciar pessoas?” Imagina o shift de mentalidade.

Pra você entender, é como se um médico fazendo residência ou mestrado com o chefe de uma prática do Einstein ou da USP, por exemplo, resolvesse comprar um livro de marketing de instagram e começar um perfil.

 

Resultados

Minha mente explodiu. Desconstrui “verdades” estúpidas e refiz hábitos que deterioravam minha imagem e limitavam meu sucesso. Passei a investir muito da minha cabeça no tema.

Para você ter ideia, criei o hábito de sorrir para as pessoas (uma obviedade, né?). Eu tinha uma expressão muito fechada até então.

Meu sucesso na carreira nos momentos que se seguiram estava muito ligado ao que aprendi nessa fase.

 

O paralelo com a carreira médica

Por que estou te falando isso?

Muitos médicos em formação parecem viver ou relatam ter vivido, na medicina, uma bolha “irmã” dessa ai que eu vivi. Fazem graduação, R1 e R3 sempre focados em se desenvolver tecnicamente.

Continuam em uma dependência e foco técnico naquele mentor ou professor que ensina tudo sobre a especialização.

Aquela médica que mencionei no início é um exemplo típico.

Você termina seu R1 ou R3 com entre 27 e 32 anos e não sabe como ganhar dinheiro com medicina. E se não aprender, pode perder mais 10, 15, ou até a vida toda e não ser remunerado.

 

“Agora eu preciso ganhar dinheiro”

 

Entenda que o que eu falo não tem relação com ganhar dinheiro no tom de ambição ou ganância. De jeito nenhum.

É que você não consegue viver seu propósito plenamente se suas contas não estiverem bem pagas, ao ponto que você consiga também desfrutar bem de sua própria vida.

A verdade é que a carreira de especialista que paga super bem, está disponível para pouquíssimos médicos.

Pense bem: quantas vagas existem em hospitais renomados, aqueles que pagam grandes salários, para um especialista renomado?

“a carreira de especialista que paga super bem, está disponível para pouquíssimos médicos.”

Eu fiz umas contas de engenheiro. São +500 mil médicos no Brasil. Estimo que menos de 0,1% dos médicos tem oportunidades ímpares junto a grandes corporações de saúde, aquelas que pagam mais de R$ 30 mil reais por mês para que um único especialista esteja em seu quadro.

 

Qual o caminho então?

No final, você vai ter que construir seu nome e seu negócio. E um R1 e um R3 só te dão títulos. Ajudam, claro. É fundamental estudar.

Mas infelizmente, ainda mais hoje em dia, o título está longe de te assegurar que você vai ser bem remunerado e viver o que sonhou na sua profissão.

São inúmeros médicos, de graduandos a experientes, que relatam ter perdido muito tempo e se queixam de não estarem bem remunerados.

O que estou sugerindo então?

Estou sugerindo que você não perca tempo.

Estou recomendando que você dedique tempo a aprender a gerenciar seu negócio de saúde e o seu nome.

Os assuntos aos quais você escolhe dedicar tempo para se preparar vão afetar diretamente suas decisões e seus anos logo após concluir sua jornada de estudos na área médica.

Você pode se preparar bem e em um ano construir um consultório que te realiza. Aquele cheio de pacientes, casos de sucesso e boa remuneração.

Ou você pode concluir seu “R1/R3”  fantástico e ao final estar perdido. Divagar entre as diversas opções. Pensar em se juntar com um ou dois colegas para tentar começar um consultório…

Ou de repente colar naquele especialista mentor que gosta de você…

Ou tentar ajuda de algum conhecido para se filiar a um convênio e conseguir volume.

Quem sabe o que vai dar certo, não é mesmo? Para quem está perdido, melhor ir tentando um pouco de tudo…

“Os assuntos aos quais você escolhe dedicar tempo para se preparar vão afetar diretamente seus anos logo após você concluir seus estudos na área médica.”

Deixa eu te falar… O que vai fazer a diferença é você quebrar a bolha.

Eu tive que comprar um livro e iniciar uma nova jornada de aprendizado que mudaria minha cabeça para sempre. Se pagou rápido. Se hoje consigo trabalhar e me sentir cumprindo meu propósito de vida, aquele momento de virada foi crucial.

Eu poderia te falar que você deve seguir recomendações mirabolantes de sucesso ou algum “7 passos para um consultório de sucesso”.

Mas sem te trazer uma reflexão, não adianta nada. Você precisa de uma mentalidade de sucesso para a carreira médica.

Sem uma mentalidade de sucesso para a carreira médica, as receitas que eu te prescrever podem funcionar temporariamente para eliminar os sintomas (na sua trajetória), mas eles vão mascarar o real diagnóstico. E depois pode ser tarde demais.

 

Reflexão: você tem a mentalidade de sucesso para a carreira médica?

Quanto tempo você tem dedicado a aprender o mínimo sobre gestão na área de saúde? O que você pensa sobre sua imagem? Sobre seu marketing pessoal?

Quais as três pessoas que você admira mais?

Quanto tempo você investiu em todo seu período de estudos, desde o primeiro ano de medicina, nesses temas? 30%, 10% ou menos de 1%?

Eu vi muitos colegas continuarem na mesma mentalidade da época de faculdade. Pessoas de potencial excepcional que não entenderam que poderiam ter um impacto muito maior se focassem em outros skills.

Também entendo que as vezes não é o que gostamos ou queremos. Mas focar só no que gostamos nem sempre traz os resultados que gostaríamos de ter. Mas é super ok, se você está consciente.

Para ter sucesso como médico, você precisa dominar aspectos de gestão na área da sáude. Assim você conseguirá levar seus bons serviços e conhecimento para muito mais gente. Ajudar muito mais gente. E ainda ser bem remunerado por isso.

Que se você for bom de atendimento (não é uma obviedade, então clique aqui para saber mais) e marketing, vai conseguir se divulgar para muito mais pessoas. Vai distribuir seu conhecimento e ajudar  mais pessoas. Isso não é contribui para o seu propósito?

Além disso, ao não entender as mudanças em curso, você abre espaço para que profissionais ruins ocupem posições de destaque.

Você é mais que um médico. Você nasceu para liderar.

E toda liderança saudável, começa com liderar a si mesmo. E sua forma de pensar é o início de tudo.

 

 


Sobre o Autor

Fernando Andrade Jr foi consultor sênior da McKinsey & Company, uma das consultorias mais renomadas no mundo, onde trabalhou em nos temas de cultura centrada no cliente e de jornada de experiência do cliente. Decidiu fundar o Bric Health, com a aspiração de contribuir significativamente para uma saúde mais justa para médicos e pacientes. É formado em Engenharia de Telecomunicações pelo Instituto Militar de Engenharia, possui também MBA pela London Business School.

 

Seu atendimento é o melhor marketing digital

A internet está repleta de conteúdos que prometem mais pacientes para os médicos. O tópico número 1, sem sombra de dúvida, é marketing digital. Além disso, seguem-se discussões sobre “fidelização do paciente”, “gestão eficiente de clínicas”, dentre inúmeros outros temas que tratam de receitas e metodologias para se obter mais pacientes e lucros. Vemos uma verdadeira chuva blogs, artigos e e-books, todos com termos estranhos a indústria e seus leitores. Também pudera, já que esses métodos e termos foram criados nas indústrias de Manufatura e de Consumo! Não é à por acaso que tantos médicos se frustram em suas tentativas de se posicionar no meio digital.

Marketing digital, como qualquer outra ferramenta de marketing, pode ser ou não efetiva. Muitos investem tempo e dinheiro em marketing digital e se frustram com resultados pífios obtidos no final. Mesmo se você alcançar milhares de seguidores no seu blog, Instagram ou canal de YouTube, isso não se traduz de imediato em maior preço de consulta ou mais pacientes.  Veja, não quero com isso desmerecer o quanto marketing digital, bem conduzido, pode contribuir para a atração de novos pacientes. A questão é que marketing digital não pode ser o tema central, mas um meio.

 

A relação entre atendimento, recomendações e marketing digital

Um olhar mais atento percebe que os pacientes ainda buscam por novas indicações médicas em sua própria rede de relacionamentos. As pessoas ainda buscam recomendações de bons médicos ou clínicas junto a familiares, amigos ou conhecidos. As recomendações fluem nos grupos de Whatsapp, Messenger e afins. Famílias e amigos dividem entre si necessidades e recomendações médicas em uma fração de segundos. A força da recomendação depende de muitos fatores. Em geral alguém conta uma história ou experiência com o médico indicado, experiência esta que pode ser até de um terceiro que nem está no grupo. Dependendo de quem recomendou ou do perfil de quem está procurando, pode-se ou não buscar informações na internet, onde um bom marketing digital pode ajudar a te posicionar. Mas força da recomendação não para aí.

No campo da boa gestão, já é provado que um bom “boca-a-boca” é crítico para o crescimento do negócio. Frederick Reichheld e Rob Markey, consultores da Bain & Company, desenvolveram e provaram este conceito em seu livro The Ultimate Question, publicado em 2006. Tal conceito, alicerçado sobre observações da realidade, estudos e análises estatísticas, se espalhou pelo mundo empresarial como pólvora, e hoje em dia você recebe no seu celular ou e-mail a famosa pergunta: “O quanto você recomendaria nossos serviços seus amigos?”. Foi neste livro que foi cunhado o termo “Net Promoter Score”, muito comum na literatura e círculos de gestão.

Adaptando o conceito para serviços de saúde, uma clínica, consultório ou médico precisa se atentar para três tipos de pacientes pós-atendimento. Um primeiro tipo é o paciente simplesmente “satisfeito”. Este terá, tipicamente, um comportamento mais passivo em relação a clínica, consultório ou médico que lhe atendeu. Se perguntado, ele dirá sua opinião, mas será neutro. Há ainda outros dois perfis que são fundamentais para o crescimento ou não da clínica ou consultório: o “promotor” e o “detrator”.

 

Promotores e Detratores

Vamos pensar fora do setor de saúde por um momento. Como cliente, você na sua vida já ficou encantado com um serviço ou produto? Qual foi sua reação nas horas que se seguiram? Tipicamente um cliente “encantado” proativamente comenta sobre o serviço ou o produto que adquiriu com outras pessoas com quem interage nas horas que se seguem. Ele também é pré-disposto a prontamente recomendar aquele produto ou serviço. O cliente encantado se torna um “Promotor” do excelente serviço ou produto que consumiu.

O cliente que termina totalmente insatisfeito e decepcionado tem comportamento similar. Ele será proativo em comentar com outras pessoas de seu círculo sobre sua experiência, mas neste caso será enfático sobre quão terrível ela foi. Sempre que o assunto surgir, ele se manifestará recomendando em que seus colegas, amigos ou familiares nunca se aproximem da empresa com a qual ele se decepcionou. Ele será por muito tempo um “Detrator”.

Se em produtos e serviços de nosso dia-a-dia podemos nos tornar Promotores ou Detratores, isso será ainda mais acentuado no setor de saúde. A saúde é o bem mais precioso e a maior preocupação para qualquer pessoa ou família. Certamente um paciente e seus familiares terão esse senso de julgamento da experiência muito mais aguçados, só por estarem falando de saúde. Vale ainda pontuar que, dependendo da gravidade da doença, o paciente será ainda mais crítico e frequente na avaliação dos serviços de saúde. O setor de saúde causa muita mais sensibilidade do que em outros setores ou indústrias. A satisfação ou insatisfação nunca será comparável a comprar um carro, internet do celular ou serviços bancários, pois estamos falando de vida.

 

Resolvendo o problema central: cultura centrada no paciente.

Promotores e Detratores são apenas arquétipos. O importante é perceber que a experiência pela qual o paciente passa é a verdadeira questão a ser endereçada. Nesse sentido, o gestor precisa fazer três perguntas críticas. “Como tratamos nossos pacientes desde o momento que ele agenda uma consulta?”. “Por que tratamos nossos pacientes dessa forma?” “O que define nossas vantagens e deficiências: cultura, protocolos, ou ambos?”

Um bom gestor, aplicando metodologias de jornada do paciente, pode reduzir o risco de uma experiência ruim através de bons protocolos e processos e ainda conseguir melhorar o número de pacientes promotores. Discutimos isso na série Desmistificando o que importa na Jornada do Paciente. Mas se essas melhorias partirem de uma cultura orientada a lucro, os profissionais envolvidos entenderão não terão o compromisso com o paciente, mas sim com o protocolo estabelecido. Todas as situações não previstas no protocolo se tornarão uma roleta russa na experiência do paciente.

Por fim, se uma clínica ou consultório não possuir bons procedimentos e protocolos, seus profissionais poderão contornar, dentro de um limite considerável, tal deficiência. Mas isso só ocorrerá se estiverem aculturados para isso. Tais profissionais precisarão, genuinamente, valorizar o cuidado com percepção que o paciente tem do serviço, para o bem do próprio paciente. Discutimos problema cultural em Construindo um Cultura Centrada no Paciente, e o mesmo é certamente mais desafiador.  É contudo muito mais poderoso para a que uma clínica, consultório ou profissional se torne uma referência positiva e experimente um crescimento diretamente decorrente da ferramenta que continua permanecendo a mais poderosa de todas: o boca-a-boca.

 

 


Sobre o Autor

Fernando Andrade Jr foi consultor sênior da McKinsey & Company, uma das consultorias mais renomadas no mundo, onde trabalhou em nos temas de cultura centrada no cliente e de jornada de experiência do cliente. Decidiu fundar o Bric Health, com a aspiração de contribuir significativamente para uma saúde mais justa para a população brasileira. É formado em Engenharia de Telecomunicações pelo Instituto Militar de Engenharia, possui também MBA pela London Business School.